iNFO-EXCLUSÃO
COMPREENDÊ-LA E COMBATÊ-LA

José Carlos Bregieiro Ribeiro

Departamento de Engenharia Informática

Universidade de Coimbra, Portugal

jribeiro@student.dei.uc.pt

 

 

 

 

 

resumo

Aborda-se a temática da info-exclusão provocada pela chegada da Internet e pelo crescente desenvolvimento das Tecnologias da Informação.

Procura-se compreender as suas origens e extensão, através da análise de algumas métricas e estatísticas, e destacam-se algumas áreas de acção para combater o problema atentando, fundamentalmente, na sua prevenção.

Para construir uma sociedade digital será, portanto, necessário assegurar dois requisitos mínimos – meios e formação. O primeiro destes parâmetros pressupõe a existência de condições de acesso individual, decorrentes da existência de equipamento e de ligações à rede digital. O segundo relaciona-se com o ultrapassar de um limiar mínimo de literacia informática, que permita ao indivíduo operar com um computador ou outros meios que no futuro surjam.

Urge implementar acções realistas com o intuito de “info-alfabetizar”, com vista a não deixar aumentar o fosso que nos separa da sociedade que pretendemos.

 

Palavras-chave

Info-exclusão; Ciber-exclusão; info-alfabetização; exclusão social; descriminação; Digital Divide.

 

Introdução

Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações.

Artigo 37.º (Liberdade de expressão e informação), ponto 1
Constituição da República Portuguesa

 

A chegada da Internet redefiniu por completo os conceitos tradicionais e as nossas coordenadas de referência. Esbateram-se fronteiras físicas, tornou-se próximo o que dantes era distante. Tornou-se acessível o que dantes nem se sabia existir.

As Tecnologias de Informação são já parte integrante no nosso quotidiano, ao ponto de já ser quase impossível viver sem elas, e muito menos ignorá-las. Vocábulos como “software”, “bit” ou “email” passaram a ouvir-se em todo o lado, semeando a confusão entre os mais desprevenidos.

Info-exclusão, Ciber-exclusão, Digital Divide ou Techno-“Apartheid” são todos termos que se referem a um mesmo problema: a lacuna entre aqueles que podem efectivamente usar as novas Tecnologia da Informação e ferramentas de comunicação, como a Internet, e aqueles que não podem. Teme-se que a info-exclusão se torne o analfabetismo do século XXI.

Reconhecendo a gravidade do problema, muitas têm sido as entidades a debruçar-se sobre ele. Refira-se, a nível europeu, o “Relatório de avaliação do desempenho da iniciativa eEurope [2], que analisa o desempenho dos estados-membros na área das Tecnologias da Informação. Em Portugal, no âmbito “Encontro sobre Info-exclusão e Info-Alfabetizaçãoque teve lugar em 97, foi também elaborado um “Livro Verde para a Sociedade da Informação em Portugal” [1], contendo propostas de “medidas políticas a curto, médio e longo prazos, sobre as mais variadas temáticas e implicações políticas, económicas, sociais e culturais da moderna sociedade da informação”. Este texto foi, posteriormente, submetido à apreciação da Assembleia da República.

São também de destacar instituições como a “Web Accessibility Initiative [6] e a Connecting Canadians [5], que têm vindo a desenvolver esforços concretos com vista a mitigar as implicações do problema.

 

Compreender e combater

 

1. Compreender: métricas, estatísticas e análise dos dados

A penetração da Internet nos agregados familiares da UE aumentou de cerca de 18% em Março de 2000 para 28% em Outubro de 2000, 36% em Junho de 2001 e actualmente, em Dezembro de 2001, está em 38%, o que significa que o rápido arranque verificado em 2000 e no princípio de 2001 pode ter atingido um limite.

O abrandamento na implantação da Internet pode ser explicado pelo facto de as ligações à Internet estarem associadas à disponibilidade de computadores pessoais, o que fixa um limite superior para a penetração.

A utilização da Internet no total da população é, no entanto, maior do que o demonstrado pelas taxas de penetração da Internet no mercado doméstico. Em Novembro de 2001, quase 50% da população (com mais de 15 anos) utilizava a Internet em casa, no trabalho, na escola, em locais de acesso público ou em deslocação. Mais de 80% dos utilizadores da Internet conectam‑se pelo menos uma vez por semana. Em valores absolutos, há quase tantos utilizadores da Internet na União Europeia como nos EUA. A utilização da Internet é particularmente elevada nas camadas jovens, nas pessoas com estudos superiores e nas que vivem na cidade. Por exemplo, 40% das mulheres utilizam a Internet, em comparação com 56% dos homens. Esta diferença apenas se alterou marginalmente durante o último ano: em Outubro de 2000, 35% das mulheres e 50% dos homens responderam que utilizavam a Internet.

A penetração da Internet nas empresas é muito mais elevada que a taxa relativa ao mercado doméstico. Actualmente, quase 90% das empresas com mais de 10 empregados têm uma ligação à Internet. Mais de 60% têm um sítio Web. Uma excepção importante é Portugal, onde a penetração da Internet nas empresas apenas atinge dois terços de todas as empresas e apenas cerca de um terço das empresas têm o seu próprio sítio Web.

Ao nível das escolas, os números revelam-se enganadores. Em Maio de 2001, mais de 80% das escolas da UE estavam em linha. No entanto, o facto se estudar numa escola com acesso à Internet não significa necessariamente que se tenha acesso à Internet, nem implica que a Internet esteja a ser utilizada para aprender. Em mais de 10% das escolas conectadas, os alunos não tinham acesso, dado que a Internet estava ser utilizada para fins administrativos e não educativos. Além disso, a conectividade continua a ser dominada pelas tecnologias de banda estreita: mais de dois terços das conexões das escolas são RDIS e as restantes são sobretudo efectuadas através de uma linha telefónica normal.

Os preços do acesso à Internet por telefone normal têm diminuído continuamente e substancialmente nos últimos dois anos. Um estudo efectuado em Novembro de 2001 demonstrou que para um utilizador doméstico típico (ou seja, 20 horas de utilização em horário económico), os custos mensais estão actualmente entre 10 e 20 euros para a oferta mais barata na maioria dos Estados-membros da União Europeia, incluindo custos das chamadas.

No respeitante à Internet em banda-larga, os preços são ainda muito elevados e, por vezes, proibitivos. Os valores disponíveis sobre o número de ligações em banda larga no mercado residencial indicam que a implantação da banda larga varia muito segundo os Estados­‑Membros: a Alemanha tem mais de 2 milhões de assinantes da ADSL, a Bélgica quase 500 000 e o Reino Unido 250 000, enquanto que na Grécia, por exemplo, não há serviços de banda larga disponíveis.

 

2. Combater: Onde Agir e Como Agir

1.      Tornar a Internet mais barata

A relação entre a penetração da Internet e os e o seu custo é, claramente, inversa. É, portanto, necessário assegurar a disponibilidade de pontos de acesso em locais públicos, como escolas ou bibliotecas, de forma a evitar a exclusão de todos os que não dispõem de condições de acesso no lar ou no local de trabalho, devendo evoluir-se no sentido de proporcionar a todos o acesso gratuito.

Dever-se-á também estimular a concorrência, de modo a forçar a descida dos preços para valores mais baixos e evitar situações de monopólio. A concorrência não faz apenas descer os preços mas leva igualmente a modelos de preços inovadores. Tudo isto facilitará o acesso à Internet por parte do utilizador privado, relativizando a necessidade de subsídios.

 

2.     Tornar Internet mais rápida

A lentidão da Internet constitui um obstáculo à sua utilização, na medida em que o aumento do tempo necessário para aceder a determinados conteúdos pode desencorajar as pessoas, pelo inconveniente ou pela despesa. Além disso, através da televisão, as pessoas estão habituadas a conteúdos multimédia e audiovisuais ricos, o que não pode ser oferecido de um modo adequado através da Internet de hoje.

Para ultrapassar este problema dever-se-ão fomentar as ligações em banda-larga (ADSL e Cabo), criando infra-estruturas e criando parcerias estratégias (por exemplo, com fornecedores de Televisão por Cabo), mas nunca negligenciando as alternativas como o satélite, a televisão digital interactiva, o acesso fixo sem fios em banda larga ou as conexões em fibra para as residências.

 

3.     Tornar a Internet mais segura

O consumidor só confiará inteiramente na Internet quando sentir que a sua segurança não é posta em causa enquanto está conectado.

Para combater a insegurança será necessário desenvolver métodos e protocolos de Internet eficazes na defesa aos ataques externos (como os de vírus informáticos) e assegurar a protecção da privacidade on-line.

Métodos como o da “assinatura electrónica” e o dos “cartões inteligentes” (cartões equipados com chips de autenticação) mostraram-se falíveis, e a evolução das tecnologias neste domínio é lenta. É necessário intensificar os esforços e mobilizar meios para tornar a segurança e a privacidade on-line não só prioridades, mas sim realidades.

Uma utilização mais alargada da auto‑regulação através de códigos de conduta e resolução de litígios on-line poderia, também, simplificar procedimentos e também facilitar o comércio transfronteiras.

 

4.     Investir nas pessoas e nas qualificações.

É necessário dotar as pessoas de qualificações para explorarem as tecnologias da informação e das comunicações, de forma a garantir que ninguém é excluído dos benefícios da sociedade da informação.

Uma área de acção prioritária deverá ser a das escolas. Mais vale prevenir que remediar, e a melhor maneira de evitar a info-exclusão é proceder à info-alfabetização. A existência de meios de acesso Internet não é, por si só, suficiente. Há também que integrar eficazmente a temática das Tecnologias da Informação nos currículos dos alunos, e os professores têm de ser apoiados e formados para utilizarem eficazmente as novas ferramentas com eficácia.

Há também que fomentar a formação de indivíduos no âmbito da sua profissão. As competências em informática são, hoje em dia e cada vez mais, essenciais para a empregabilidade dos trabalhadores em todos os sectores, e a criação de empregos qualificados é uma consequência natural do desenvolvimento de novos serviços numa sociedade com base no conhecimento e na informação. Mais de metade dos trabalhadores da União Europeia utiliza computadores nos seus empregos, sendo que essa utilização aumentou de cerca de um quinto desde o ano passado, e três em cada quatro trabalhadores administrativos são utilizadores de computadores, mas apenas cerca de um terço da população activa da UE já teve formação em informática para um emprego.

 

5.     Investir nos conteúdos

Criar serviços na língua materna dos utilizadores. 95% dos conteúdos da Internet são em língua Inglesa…

Fomentar o acesso à Internet através de televisores e aparelhos móveis. Urge criar hábitos de conectividade. Dever-se-á evoluir para um estado em que não haja impedimentos de qualquer espécie no acesso à rede.

Fomentar o comércio electrónico. A sociedade da informação é também uma sociedade de mercado. Se for possível ao indivíduo utilizar a Internet para executar tarefas do dia a dia tão vulgares como fazer compras, terá mais uma razão para ultrapassar os seus medos, fobias e desconhecimentos no âmbito das Tecnologias da Informação.

Criar serviços do sector público. A colocação em linha de serviços da administração pública traz benefícios não só para os consumidores, mas também para a administração pública, visto que não só torna mais fácil o acesso a determinados serviços, como reduz o custo da disponibilização dos mesmos.

Criar mais e melhores serviços de saúde em linha. As informações ligadas à saúde disponíveis na Internet estão entre as mais frequentemente consultadas. Mas tal como acontece com muitos outros conteúdos da Web, estas informações não são sujeitas a qualquer verificação quanto à sua exactidão. Por conseguinte, seria útil dispor de uma lista de critérios de qualidade, de modo a estabelecer normas mínimas para o funcionamento desses “sites” relacionados com a temática da saúde. Paralelamente, dever-se-iam desenvolver mais e melhores infra-estruturas a este nível.

 

6.     Criar mais e melhores meios de acesso para cidadão com deficiências físicas e mentais

Tirar partido das interfaces gráficas (como web-cams) em benefício dos surdos-mudos, dar prioridade ao desenvolvimento de sintetizadores de voz (conversores de texto digital em discurso sintetizado) em benefício dos cegos, e desenvolver aplicações (como jogos e outros programas interactivos) com vista a estimular o desenvolvimento das capacidades intrínsecas dos indivíduos com deficiências mentais.

 

Conclusões

Hoje em dia, o perfil do típico utilizador da Internet é o de um indivíduo do sexo masculino, jovem e com elevado nível de instrução. Mas todo o cidadão de uma sociedade que se quer democrática tem de estar informado para exercer conscientemente a sua cidadania. As sociedades vindouras terão, pois, o dever de facultar acesso gratuito e generalizado às Tecnologias de Informação, em todas as circunstâncias, e com plena liberdade de expressão.

Numa sociedade subordinada a princípios de justiça social será necessário assegurar a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, o equilíbrio inter-geracional, a igualdade de acesso independentemente da categoria sócio-económica e a redução dos obstáculos na integração dos deficientes físicos ou mentais. Caso contrário, as Tecnologias da Informação podem tornar-se num poderoso factor de exclusão social.

Há também que trabalhar no sentido de mudar a mentalidade de todos quantos sentem medo ou desconfiança das Tecnologias da Informação. É necessário desenvolver esforços no sentido de integrar na sociedade da informação não só os indivíduos que não podem ou sabem utilizar as novas ferramentas, mas também aqueles que não as querem utilizar, incentivando-os e motivando-os.

 

Agradecimentos

O autor agradece aos professores responsáveis pela disciplina de “Sociedade, Profissão e Ética”, no âmbito da qual foi elaborado este texto.

 

Referências

1.      Coelho, José; et all; “Livro Verde para a Sociedade da Informação em Portugal”, http://www.acesso.mct.pt/docs/livroverde_rtf.zip

2.      “Relatório de avaliação do desempenho da iniciativa eEurope”, http://europa.eu.int/information_society/eeurope/news_library/new_documents/benchmarking/benchmarking_pt.doc

3.      “Constituição da República Portuguesa”, http://www.cidadevirtual.pt/asjp/leis/crp.html

4.      “Conferência Internacional Sobre Info-exclusão”, http://www.socid.org.br/files/ConfX.pdf

5.      “Connecting Canadians”, http://www.connect.gc.ca/

6.      “Web Accessibility Initiative”, http://www.w3.org/wai

7.      Ministério da Ciência e Tecnologia, “Grandes Opções do Plano 1998, II.7. A Sociedade da Informação – Uma Reforma Estrutural”, http://www.mct.pt/novo/ministerio/textos/gopsi98.htm