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TRABALHOS
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Como a
tecnologia nos está a mudar:
A tecnologia
muda as nossas vidas... para melhor ou para pior?
Por
Élio
Joaquim Pereira Ferreira
Departamento
de Engenharia Informática
Universidade
de Coimbra
3030
Coimbra, Portugal
Palavras chave - Novas tecnologias, informação,
tecnologia, revolução tecnológica.
1.
Introdução
Acordamos. Um dia como outro qualquer... o despertador alerta que está na hora de levantar, não se liga o esquentador para tomar banho porque este é electrónico e liga quando necessário, em seguida vestimos a roupa que foi lavada na máquina de lavar e passada com um ferro eléctrico. Para o pequeno almoço, nada como umas torradinhas acabadas de fazer e um bom café acabado de tirar da máquina. Sim, estamos prontos para mais um dia de trabalho.
A caminho, no nosso carro seguimos as orientações que o GPS indica para fugir ao trânsito enquanto ouvimos a nossa rádio favorita. Cuidado, é preciso prestar atenção aos semáforos... e é melhor não atender agora o telemóvel que está a tocar.
Chegados ao local de trabalho, sentamo-nos na nossa secretária e ligamos o computador, lemos o correio electrónico, vemos as notícias do dia através da Internet, olha esta... já entraram em funcionamento as consultas médicas por teleconferência bem como os julgamentos pelo mesmo método.
Bem, depois de um dia atarefado e voltados a casa, como chegamos tarde, vamos ao congelador e em dez minutos (com a ajuda do nosso microondas) temos o jantar pronto. Então, só falta sentarmo-nos na poltrona de relaxamento com massajador e ligar a nossa TV digital para escolher um filme para ver.
São horas de ir para a cama, amanhã é outro longo dia de trabalho.
Pois é, quantos de nós já parou para reflectir um pouco nisto tudo?
Experimentámos, de modo inconsciente, constantes avanços tecnológicos, aparentemente inócuos, estando de certa forma habituados a partilhar o espaço com as máquinas!
A elaboração deste artigo visa fazer compreender como as novas tecnologias mudaram a nossa maneira de viver e até que ponto é bom para nós.
Tudo o que agora pode ser feito através de um simples clique, como seria feito se não fossem as novas tecnologias? Será isto tudo um novo paraíso? E quanto à sociabilidade? Não haja dúvida de que as novas tecnologias transformaram a sociedade. Mas vivemos, agora, melhor do que antes?
A cultura digital pode levar-nos a um mundo mais veloz, mais rico e inteligente. Ou tornar-nos menos solidários, mais materialistas e viciados. Onde está o limite? Como se pode orientar o ser humano na nova sociedade tecnológica?
Como diz Howard Rheingold, um dos pensadores mais activos da cultura digital, “tudo isto colocou imensas quantidades de poder nas mãos de milhões de pessoas; a pergunta é: sabemos utilizá-lo?
2.
Optimistas e pessimistas
Os tecno-optimistas não duvidam que sim. Hoje temos
um maior controlo do que nunca sobre as nossas vidas, as nossas mentes, os
nossos corpos e, até, os nossos genes. O trabalho duro é tornado mais fácil.
Temos acesso a quantidades de informação antes impensáveis, aproximam-nos de
locais remotos, aumentam a liberdade individual...
Perante isto, o tecnopessimismo em vigor não deixa
de nos chamar a atenção com imagens de viciados da Internet, homens e mulheres
desenraizados, teledependentes solitários, trabalhadores substituídos por máquinas,
crianças hiperactivas devido aos videojogos...
Qual das duas aproximações terá razão? Poderemos
atribuir razão a alguma delas?
3.
Os robots multiplicam-se
O mercado mundial de robots industriais alcançou, em
1996, números record, com a instalação de 80.500 novas unidades. O preço
de cada uma delas, entre 1991 e 1998, desceu em cerca de 3 milhões de dólares
(mais de 12 milhões em 1991, para cerca de 9 milhões em 1998). O que significa
isto tudo?
As novas tecnologias provocaram uma mudança no
perfil dos trabalhadores e deram origem a outras formas de gestão. A massiva
automação veio contribuir para que a nova tecnologia destrua o emprego? Ao
contrário do que muitos tecnófobos defendem, as novas tecnologias não têm,
necessariamente, de eliminar empregos. Os peritos crêem que, nas ultimas décadas,
se produziu uma modificação nos postos de trabalho, menos concentrados em
tarefas duras e perigosas e mais em cargos de criatividade e responsabilidade.
4.
Teremos mais ócio?
Falando do facto de a tecnologia nos tornar mais
ociosos, segundo Geoffrey Godbey, autor do livro Time for Life, o efeito
é o oposto. “As máquinas não nos dão mais tempo livre, simplesmente mudam
a forma de estarmos ocupados. Em vez de jogarmos às cartas com seis ou sete
amigos, hoje podemos entrar em contacto com 100 pessoas através do correio
electrónico.” E isso ocupa muitos minutos.
Segundo os estudos realizados, quase metade das
pessoas que possuem um computador em casa dedicam-lhe mais horas do que à
televisão ou à leitura de livros e de jornais. Mas outros hábitos, como ouvir
musica, fazer desporto ou estar com os amigos e a família, continuam a merecer
maior atenção. Curiosamente, ao contrário do que opinam os tecnófobos, a
introdução destas tecnologias não nos torna mais solitários.
5.
Velocidade acelerada
O tempo deixou de ser o que era. Desde que o luxo de prescindir do Sol e da Lua para o medir, entrou numa frenética corrida para o prolongar (hoje, vivemos em cidades despertas 24 horas por dia) e para fugir a ele. Assim se criou toda uma cultura do instantâneo: café solúvel no momento, repetições das melhores jogadas no futebol, resposta do banco por telefone, seguros de automóvel imediatos...
Hoje, exigimos que tudo nos seja servido muito mais
depressa, e estamos a consegui-lo graças às tecnologias de rebobinagem rápida
da fita do atendedor automático, ao avanço a dupla velocidade do vídeo, aos
anúncios com locutores que falam como metralhadoras, ás caixas automáticas
que simplesmente nos requerem que respondamos sim ou não. Em consequência de
tudo isto, um orador que fale à velocidade natural da nossa espécie quase nos
chama a atenção pela sua lentidão. Portanto se por um lado os utentes da
tecnologia exigem aparelhos mais rápidos, por outro, os fabricantes esforçam-se
por satisfazer esses pedidos, oferecendo produtos cujas qualidades raras vezes
podem servir para a vida quotidiana.
O que é que ganhamos com isso? Temos facilitada a
tarefa de mudar de canal de televisão sem sair do sofá, transformando o espectáculo
numa sucessão de imagens desconexas, tornando-nos adeptos do zapping de
canal.
6.
Excesso de dados e Complexidade
Outro erro quotidiano é o excesso de informação que se despeja constantemente sobre os computadores. Para utilizar alguns programas,, é necessário ler um manual de várias dezenas de páginas, o que converte a informática num mistério do qual muita gente receia aproximar-se.
Um outro problema muito corrente é o excesso de
complexidade das máquinas. Já se interrogou alguma vez por que motivo os
computadores não se ligam de imediato depois de carregar no botão, tal como
qualquer outro aparelho? A razão é que o computador requer cada vez mais e
mais memória, aplicações e programas, só para se pôr em funcionamento.
Depois há os velhos dramas que ocorrem, todos os
dias, com as máquinas, e que incluem destruir a reportagem do baptizado do
filho por ter carregado no botão errado do vídeo, perder todo um trabalho que
demorou horas a fazer no computador porque nos esquecemos de o gravar e a luz
foi abaixo, desesperarmos quando cai a ligação à Internet depois de
finalmente termos encontrado o que andávamos à procura há tanto tempo.
Em definitivo, trata-se das consequências de um fenómeno
cada vez mais evidente: perdemos o controle sobre as nossas operações para o
delegar numa máquina, num computador central ou numa rede.
Se há uns que se sentem perfeitamente à vontade
para funcionar com um computador, os outros utentes têm de viver com a esperança
de não estragarem o equipamento.
7.
Velhos dilemas
Alguns desses dilemas já são velhos e correspondem,
simplesmente, a critérios de honradez, lealdade, sinceridade, ou sentido de
justiça do utente. Um mentiroso e um ladrão tanto o podem ser perante um
Pentium III como diante de uma caixa de sapatos. Mas outros aspectos éticos são
novos e nasceram com a tecnologia. É lícito copiar um programa de computador?
Até onde chega a privacidade de uma pessoa ligada à Internet? Será responsável
pelos seus actos um cibernauta que se apoie no anonimato? Que entidade jurídica
pode participar numa tertúlia electrónica? O libelo on line é
igualmente punível? Como se poderá castigar o empresário que não toma em
consideração os efeitos do uso das máquinas na saúde dos seus empregados? O
virtual pode equiparar-se ao real?
Estamos então perante um verdadeiro problema ético.
Mas já começam a dar-se os primeiros passos para criar um corpo ético que
proteja o indivíduo perante as máquinas. Existe em Barcelona o Instituto
Europeu de Tecnoética, apoiado pela empresa Seiko Epson Corporation. Nas
palavras do presidente da Epson Ibérica, “pretende-se que os executivos das
grandes empresas tecnológicas não percam a noção de que o importante são os
homens.
8.
Temos de ser solidários
Manuel Castells, catedrático da Universidade da Califórnia em Berkeley, pôs o dedo na ferida: “No momento em que nos aproximamos da maximização da produtividade, da tecnologia da criatividade, acumulam-se problemas sociais e políticos com perfis potencialmente dramáticos, como a intolerância, o terrorismo biológico, a chantagem nuclear, o aumento da economia criminal global...”
Como deverá o ser humano enfrentar estes problemas?
Para Castells, a chave está na solidariedade: “Ser solidário é mais necessário
do que nunca, para não vivermos sempre em competição, esgotados e
angustiados.”
Conclusão
A tecnologia não é neutra.
As máquinas podem ser carregadas de intenções políticas, sociais e económicas.
É importante ter em consideração as possíveis deturpações no seu uso e na
sua construção.
A Internet é revolucionária, mas não utópica.
É uma ferramenta extraordinária, mas reflecte todas as virtudes e defeitos da
sociedade a que pertence.
Os governos têm de tomar decisões.
O ciberespaço não deve constituir um território fora do controlo dos estados.
Informação não é conhecimento.
Cada vez é mais fácil adquirir grandes quantidades de informação sem
conhecer as suas fontes e o seu nível de rigor. Perante o risco de terminarmos
sobre-informados ou mal-informados, impõem-se grandes doses de cepticismo e de
honestidade profissional. Por muito avançado e simples que seja o recurso à
rede como meio de comunicação, não devemos convertê-la num substituto para
as nossas próprias capacidades intelectuais.
Informatizar as escolas não significa prescindir
delas. A
educação à distância não pode acabar com a educação presencial.
O espaço radioeléctrico é público; o público
deve receber os seus benefícios. A utilização das frequências de rádio e televisão deve reverter em
prol da sociedade.
Compreender a tecnologia deve constituir um direito
essencial dos cidadãos. Ninguém se deve sentir excluído de cada um dos avanços tecnológicos.
| www.missao-si.pt - Missão para a Sociedade da Informação, do Ministério da Ciência e Tecnologia. | |
| www.ispo.cec.be/sitemap.html - Projecto da Comissão Europeia para a Sociedade de Informação. | |
| www.technorealism.org - Páginas sobre os princípios do tecno-realismo. |