Fotos minhas de Cabo Verde



A ciência e a arte diferem na forma, na estética, nos utensílios. Mas em boa verdade, estas duas áreas fundamentais de investigação e do conhecimento humano, são almas gémeas. E são-no, antes de mais, pela abnegação, pelo poder criativo, pela inovação!

FRAGMENTOS ( da vivência do Homem cabo-verdiano)

Há uma aldeia imaginária, perdida, algures, aonde a paisagem das ilhas confunde-se com a paisagem humana:

(...) Nesse mundo esquecido, ao sabor dos deuses e dos gafanhotos, ao sabor do imaginário, recriamos os sonhos (e vivemo-los). Sim, e convém dizê-lo em voz alta e cálida, convém dizê-lo para que o tempo saiba que também desafiamos os deuses e teimamos em partilhar e recriar esse universo. O camponês já plantou o trigo, a cevada e a maior das árvores, e só falta chover para as descrições exteriores fiquem completas. A vida pertence à paisagem, o quotidiano agarra-se à gravidade dos sonhos, e falaremos das palavras, do tédio intenso, suas lo nas amorfas cobrindo os dias, falaremos do sentimento que abarca morte e nascer:

"Alí nha côrpe:strumá bô tchom!
Alí nha sangue: regá bô midje! "

Rochas, pedras escamadas, horizonte doendo a terra deserta. Ó lua grávida, dolência nas sombras anoitecidas e nos encantos! O céu, sua viuvez inválida, contém todas as nossas desaprovações? Ou o nosso propósito é a verosimilhança que amadurece a eterna im aterialidade? As coisas povoam o quotidiano com autoridade idónea, e acaso, seremos inconsequência delas? Resistimos... oh o quanto resistimos ao abismo das ansiedades, a língua espessa dos oceanos! Todos os caminhos são trilhados pelo vento, descendo até encontrarem o mar. Do lado onde sopra o harmatão pequenas dunas de areia circundam as casas. E abandonada ao acaso, essa gente acompanha o arrastar do sol e dos botes, hora o canto dos pássaros, ins tinto ou suplício, resquícios nossos. Mais a norte, sob o agreste e o brando, sobrevivem algumas hortas, o bananal, a esperança ou a sobrevida.

As horas passam, uma a uma, e o tempo, impróprio, molda o seu templo. Na praia deserta, a calma dos instantes ou o tombar das ondas: a lua, e as mulheres que encantam harmatão vazio, cuidam da terra e dos filhos, elas habitam o seio e a serenidade dos poe ntes, centeio farto pelos campos, nossas preces, lugar dos vivos. E há um tempo para saber, e um tempo para perder e acrescentar!

A paisagem carrega-se de vulgaridade. O sol assemelha-se a uma lágrima indecisa. E invariavelmente ao galope, prantos com o mesmo assento e dor. O corpo possuído pelo cansaço desce às profundezas do pousio. As folhas tombam numa tonalidade amarelecida. A secura anuncia-se em morte premeditada. Mas ainda assim, ó infinito como pulsas no peito! Ó encanto caminhando em desespero! E na mesma praia, na areia, a nossa presença incerta. Lá ao fundo, filho pródigo, um navio vazio de viagem espera o destino.

Oh, que seria do mundo, ó versos ó espinhos, se o fogo e a terra, o canto e a água ou a mulher que dança, não aprisionassem nos seios a sereia dos seus cantos? (...)

António de Névada

Algumas referências sobre Cabo Verde

Amilcar Cabral Ana Maria Cabral
O Kriolu Caboverdiano Manuel da Luz Gonçalves
Referências Cronológicas: Cabo Verde/Caboverdianos Americanos Raymond A. Almeida